Templo - Datsan Gunzechoinei
Durante as férias de inverno de 2024/2025, o diretor do setor de assuntos estrangeiros da Repin Academy convidou alunos de diferentes nacionalidades a realizar pinturas sobre o Templo budista chamado Datsan Gunzechoinei em São Petersburgo. Essa experiência foi única, uma vez que me permitiu conhecer uma nova religião e seus ritos litúrgicos diferentes aos quais eu estava acostumado no Brasil, bem como os demais estudantes estrangeiros que também estudam pintura e escultura.
Realizamos os trabalhos durante os finais de semana e tínhamos livre acesso às instalações do templo para escolhermos as composições. Além disso, fomos até uma segunda instalação do templo um pouco mais afastado do centro da cidade. Essa nova instalação ainda está em processo de construção, mas aparenta ser promissora.
Além disso, Datsan Gunzechoinei é consagrado como o templo budista mais setentrional do planeta, e é um monumento de profunda significância histórica, artística e espiritual. Sua construção, realizada entre os anos de 1909 e 1915, foi possível graças a uma autorização especial do Czar Nicolau II, destinada a atender às necessidades espirituais das comunidades budistas do Império Russo, principalmente de origem buriate, calmuca e tuviniana, que residiam na capital. O projeto arquitetônico foi primariamente conduzido por Gavril Baranovsky, um especialista em estéticas orientais, resultando numa fascinante fusão de elementos tradicionais budistas com a robustez construtiva russa, utilizando inclusive granito da Carélia.
Um dos aspectos artísticos mais notáveis do templo são os seus deslumbrantes vitrais, cuja concepção é atribuída ao prolífico e visionário artista Nikolai Roerich. Roerich imprimiu sua marca única, criando um jogo de luz e cor que transcende a mera decoração, incorporando simbologias profundas e transformando o espaço interior num ambiente de rara beleza e misticismo. A história do Datsan, no entanto, é marcada por capítulos de grande adversidade. Inaugurado em 1915, mal teve tempo de funcionar plenamente antes de ser violentamente fechado após a Revolução Russa. Durante a era soviética, o templo foi profanado, saqueado e convertido para usos seculares, servindo como estação de rádio militar e laboratório de zoologia, o que levou à perda de muitos de seus artefatos sagrados.
O renascimento do Datsan começou apenas no crepúsculo da União Soviética, com a sua devolução oficial aos fiéis budistas em 1990. Desde então, passou por um meticuloso e contínuo processo de restauração para recuperar seu esplendor original. Hoje, muito mais do que um local de culto, o Datsan Gunzechoinei é um vibrante centro de cultura, educação e diálogo inter-religioso. Abrigando uma imponente estátua de Buda e inúmeras tangkas, o templo é um testemunho vivo da resiliência da fé e de um patrimônio cultural que sobreviveu aos períodos mais sombrios da história.
Sobre Nicholas Roerich:
Nicholas Roerich foi um artista e jurista russo que viveu entre os séculos XIX e XX, sendo aclamado por suas ideias e filosofia. Durante sua vida criou várias obras de arte importantes e testemunhou a destruição de patrimônios culturais em conflitos mundiais e regionais. Dentro desse contexto, a ideia de Nicholas em criar um Pacto partiu de sua percepção da importância de um texto jurídico para a proteção do patrimônio histórico e artístico como forma de preservação para as futuras gerações. Sua experiência como artista e jurista o fez perceber que as obras de arte só poderiam ser protegidas durante guerras e conflitos se houvesse um tratado ou convenção internacional que fosse outorgado e respeitado por outros países. Apenas com o compromisso de outras nações é que se poderia pensar em preservar o patrimônio cultural durante conflitos e guerras.

Existem poucas pessoas no mundo que militam em defesa de algo tão nobre e que busque beneficiar a humanidade. Elas geralmente possuem uma visão de mundo mais abrangente projetando planos no presente para que as gerações do futuro possam colher seus frutos. Além de uma visão ampla, também é necessário que seja aprofundada nos anseios da sociedade, lançando mão de conceitos filosóficos que estejam dispostos a preservar o passado como forma de guardar as memórias. Nesse sentido, são esses os elementos que levaram Nicholas Roerich a efetivar um projeto como esse.
Interessante notar que o Pacto de Roerich, além de seu caráter simbólico, é tão importante quanto outros tratados e convenções internacionais outorgados por diferentes países como a Convenção n° 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre Povos Indígenas e Tribais e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica). Traçando um paralelo entre esses textos jurídicos, que possuem o Brasil como país signatário, nota-se que todos buscam garantir e assegurar o direito de preservação e acesso ao patrimônio cultural da humanidade. De um lado, a Convenção 169 da OIT assegura a cultura no presente, como uma forma de garantir aos povos tradicionais indígenas o exercício e a preservação de suas produções culturais. Já o Pacto de San Jose busca garantir o acesso à cultura de modo a preservar o direito à integridade humana. Junto a esses tratados, o Pacto de Roerich busca assegurar a integridade de artefatos artísticos durante conflitos ou guerras de modo a preservar sua memória e cultura da humanidade.
A mensagem que Nicholas Roerich trouxe é importante para qualquer artista que leve a sério o seu trabalho. Todos buscam transmitir uma mensagem de modo que desejam que suas obras atravessem o tempo de forma intacta para que cheguem às futuras gerações. Nesse sentido, a preservação de monumentos e obras de arte durante conflitos e guerras é de fundamental importância.
A capacidade do ser humano em se tornar mais inteligente está relacionada com a quantidade de experiências que possui como lembranças, sejam elas vivenciadas pela própria pessoa, relatos transmitidos por terceiros, ou por meio de livros ou imagens. É aqui que o papel do artista plástico assume real importância, uma vez que são eles quem criam imagens que vão compor o imaginário da população. Nesse sentido, os artistas possuem impacto relevante na consciência da humanidade, uma vez que influenciam o pensamento das pessoas.













